No início de fevereiro, a imprensa brasileira noticiou que o Governo pretende criar um "superlaboratório" com o apoio do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), para competir de igual para igual com as grandes multinacionais atuantes no País. Segundo o governo, a meta desse "superlaboratório" seria estimular os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas nacionais, além de troca de tecnologia. Com isso, desenvolveria tecnologias para a fabricação de produtos estratégicos do Sistema Único de Saúde (SUS) até 2013, além de baixar o valor do déficit comercial de US$ 7 bilhões (valor registrado em 2009) para até US$ 4,4 bilhões,
Para o professor e coordenador do Laboratório Semi-Industrial de Farmácia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Anderson Freire Carniel, a concretização do projeto seria positiva para o Brasil porque o governo não precisaria mais fazer alocações e apropriações de outros laboratórios, uma vez que o ele não possui parque industrial. Por outro lado, uma licitação governamental pode ser um empecilho para conseguir recursos. "Seria mais difícil conseguir recursos de ponta, o que causa preocupação porque são necessários. E ainda tem a parte técnica, que são os profissionais especialistas", destaca o professor.
Segundo Carniel, para a criação do "superlaboratório" fortalecer a indústria farmacêutica nacional, são indispensáveis recursos tecnológicos de ponta, pessoal habilitado e vontade política para conseguir competir com outros grandes conglomerados. O fator político precisa ser eficiente caso o "superlaboratório" acabe gerando insatisfação às multinacionais presentes no País. "O Brasil é bastante dependente das indústrias farmacêuticas multinacionais", comenta. No que diz respeito ao setor de P&D, ele precisa ser sustentável e ter continuidade, pois não adianta investir recursos em pesquisas e não finalizá-las.
Para criar o "superlaboratório", o BNDES propõe financiar fusões entre laboratórios e aquisições, por meio do Profarma (programa de fomento voltado para o setor farmacêutico). Esse tipo de ação, de acordo com o professor do Mackenzie, pode ter impacto na produção das indústrias. "Ocorreria limitação no leque de produtos. Como as empresas farmacêuticas se especializam em determinadas categorias (colírios, injetáveis, aerossóis.), pode haver diminuição no número de opções com as fusões e aquisições", explica Carniel. Ele sugere que a produção de itens estratégicos do SUS siga, pelo menos, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), que lista os medicamentos para combater as doenças mais comuns que atingem a população brasileira.
Na geração de empregos, o professor conta que, inicialmente, o "superlaboratório" criaria muitos empregos, mas ao se estabelecer no mercado farmacêutico pode ter o efeito inverso. "Assim como a automação leva à redução de empregos, quando um laboratório compra o outro isso também acontece", simplifica.