O peso ideal não existe. O considerado normal é um valor individualizado, que depende de fatores como idade, sexo e altura, além dos genéticos, culturais e patológicos. Mesmo assim, é possível desconfiar quando os ponteiros da balança ultrapassam a marca costumeira. É como se acendesse uma luz vermelha. A sensação de volume assume uma dimensão significativa se aquela roupa não serve mais porque a cintura está bem maior do que o cós da calça, por exemplo. Ou quando, no calor, o pé parece não caber dentro do sapato. Nesse ponto, geralmente, o senso de responsabilidade passa a funcionar. A cerveja de costume ou uma fatia a mais de pizza deixam de ser vistas como algo inofensivo. É preciso refletir, ao ver que o marcador revela que os números dispararam.
De acordo com o endocrinologista da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Walmir Coutinho, a prevalência da obesidade na população tem crescido rapidamente e representa um dos principais desafios da saúde pública neste início de século. Estatísticas revelam que 40 % dos americanos são obesos. No Brasil, os dados indicam que o percentual está na mesma casa, sendo que 4% dos brasileiros são obesos mórbidos, aproximadamente 7 milhões de pessoas. Pela primeira vez na história da espécie humana, o número de pessoas com excesso de peso ultrapassou o de desnutridos, totalizando 1 bilhão e 200 milhões em todo o mundo. Países que até pouco tempo só se preocupavam com a fome e a escassez de alimentos, já registram o crescimento dos obesos. O Brasil é um bom exemplo disso. Pelo menos 67 milhões de brasileiros estão com o peso acima do normal. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o total global poderá chegar a 1,5 bilhão antes de 2015.
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A obesidade não compromete apenas a auto-estima, ela também causa sérios danos à saúde |
As implicações dessa escalada apontam para as complicações do problema. Entre as doenças que podem acometer pessoas com sobrepeso, estão o diabetes mellitus tipo 2, distúrbio do metabolismo que afeta os açúcares (glicose e outros), além do metabolismo das gorduras (lípides) e das proteínas, que produz, no decorrer do tempo, lesões graves e potencialmente fatais, como o infarto do miocárdio, derrame cerebral ou cegueira. Outra conseqüência pode ser a hipercolesterolemia (presença de quantidade de colesterol no sangue acima do normal), que pode causar doenças cardiovasculares, angina pectoris ou dores no peito devido à falta de oxigênio no músculo cardíaco (miocárdio), além do risco de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (derrame) e hipertensão arterial. A apnéia do sono e problemas psico-sociais, como as dificuldades do candidato obeso para conseguir um emprego, assim como doenças ortopédicas e diversos tipos de câncer são outros problemas enfrentados por quem tem excesso de peso. O aumento do número de pessoas com a doença em diferentes populações, incluindo países do primeiro mundo ou economias em transição, sugere que diferentes fatores estariam determinando o que já é tratado como uma verdadeira epidemia.
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"ALGUÉM DE 70 ANOS DE IDADE DIFICILMENTE MUDARÁ OS HÁBITOS DE CONSUMO, MAS EDUCAR CRIANÇAS PODE SER UM PROCESSO BASTANTE EFICIENTE".
Presidente da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Márcio Mancini |
Para Coutinho, entendendose que o patrimônio genético da espécie humana não pode ter sofrido alterações importantes num intervalo de poucas décadas, certamente as mudanças ambientais devem explicar o quadro. "Quando se avalia clinicamente um paciente obeso, deve-se considerar que diversos fatores predisponentes genéticos podem estar desempenhando um papel expressivo no desequilíbrio energético, que provoca o excesso de peso", afirma o especialista no documento denominado Etiologia da Obesidade, apresentado no site da Abeso. Acredita-se que o comportamento alimentar e os hábitos de vida sedentários, atuando sobre genes da susceptibilidade, sejam o determinante principal do crescimento da obesidade no mundo", sustenta.
O presidente da associação, Márcio Mancini, ressalta que trata-se de uma questão de saúde pública e deve ser levada em consideração na mesma medida em que se previne a hipertensão arterial ou os altos níveis de colesterol. Nesse sentido, se o peso continuar aumentando mesmo ao adotar medidas razoáveis, como diminuir o consumo de alimentos calóricos e aumentar a carga de exercícios, é recomendável procurar um médico. Mancini observa que isso deverá ser encarado como um problema de saúde qualquer. "Podese pedir exames e, ao ver os dados apresentados, se o profissional julgar conveniente para a necessidade do tratamento, decidir pela medicação ou não", avalia.
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